O estilo sob suspeita

 

Livro “O Estilo Sob Suspeita”: uma oportunidade de ler a arquitetura brasileira com outra narrativa

Em um momento em que discutimos cada vez mais memória, patrimônio e identidade, o livro O Estilo Sob Suspeita – Arquitetura e Modernidade em Archimedes Memória e Lúcio Costa, de Diego Nogueira Dias, chega como uma peça fundamental para se reavaliar a história da arquitetura no Brasil.

Em vez de seguir a narrativa tradicional que coloca o modernismo como trajetória inevitável, a obra confronta essa visão ao reconstruir a presença — e a relevância — de um personagem frequentemente esquecido: Archimedes Memória, bisavô deste que vos escreve.

É interessante contextualizar que o autor do livro em questão não tem nenhuma relação com a família Memória. Trata-se apenas de um pesquisador dedicado, rigoroso e capaz, que abraçou, de forma brilhante, a oportunidade de desvendar o acervo do meu bisavô, por décadas escondido. O livro teve como base a tese de doutorado do pesquisador, vencedora do Prêmio Capes.

O acervo de Archimedes, que engloba também seu sócio Fracisque Cuchet e seu ex-chefe Heitor de Melo, de quem herdou o escritório, foi guardado por seu filho Tales Memória desde a morte de Archimedes, em 1960. Tales, também arquiteto — como praticamente todos os membros da família —, foi professor de história da arte, diretor e até idealizador de faculdades de arquitetura do Rio de Janeiro. Mesmo com essa influência, Tales nunca se sentiu confortável com a hipótese de ceder o acervo para pesquisa. Viveu no período do auge do modernismo, e seu pai era o símbolo do estilo passado. O que meu pai, Péricles Memória Filho, conta é que Tales tinha muito receio do que os seguidores do modernismo (praticamente todos à época) fariam com o material.

Esse receio fazia muito sentido. Primeiramente, se simplesmente analisarmos os preceitos do estilo moderno, que pregava o que chamavam de “tábula rasa”, isto é, ignorar a memória da arquitetura e buscar produzir algo “do zero”. Depois, pela prática: centenas de edifícios em estilo eclético foram demolidos com o aval de órgãos governamentais de patrimônio, liderados por figuras centrais do movimento moderno, como o próprio Lúcio Costa, então diretor do SPHAN, atual IPHAN. Isso foi bem documentado e explorado pelo documentário Crônica da Demolição, dirigido por Eduardo Ades. Nesse excelente filme, o foco principal é a demolição do Palácio Monroe, mas a narrativa contextualiza o tema, tendo como pano de fundo a influência política desses agentes, politicamente muito atuantes.

Portanto, nesse contexto, é compreensível a posição de Tales em não difundir o acervo. Isso só foi possível após seu falecimento e a proatividade do NPD (Núcleo de Pesquisa e Documentação) da UFRJ, na figura do professor Andrés Passaro, que me procurou e a quem conectei com meu pai, Péricles, que herdou o acervo. Meu pai, o Memória mais entusiasta da obra de Archimedes, conduziu o processo de comodato do acervo para o NPD e acompanhou o brilhante trabalho da equipe em catalogar e restaurar o material que, na semana passada, foi definitivamente doado pela família, a fim de facilitar a participação em editais de fomento, financiamentos para dar continuidade ao processo e difundir ainda mais o conteúdo.

Estamos falando de desenhos de plantas baixas, cortes, detalhes e perspectivas, fotos, cadernos e anotações de edifícios cuja autoria sequer se sabia ser de Archimedes Memória, como, por exemplo, o Cassino da Urca — onde hoje está instalada a escola Eleva —, e outros emblemáticos, como o Hipódromo da Gávea, o Palácio Pedro Ernesto, o Palácio Tiradentes e até o polêmico projeto vencedor do concurso do Ministério da Educação e Saúde (atual Palácio Gustavo Capanema), cujo resultado foi cancelado, e cujo projeto Lúcio Costa acabou levando, apesar de ter perdido o concurso público.

Projeto Pax, de Archimedes Memória, para a sede do Ministério da Educação e Saúde, no Rio de Janeiro / Archimedes memória: “o futuro ancorado no passado”
Augusto Malta. Jockey Club, 15 de julho de 1926. Rio de Janeiro, RJ
Augusto Malta. Palácio Tiradentes, c. 1926. Rio de Janeiro,

Com acesso a esse rico material, Diego mergulhou na história não contada e teve a visão de expandir sua tese, estabelecendo um paralelo entre a figura de Archimedes e Lúcio Costa, seu antagonista ideológico e profissional.

Vale destacar que diversos acervos ao redor do mundo têm sido cada vez mais guardados por entidades que cobram para dar acesso aos pesquisadores — inclusive o de Lúcio Costa, hoje em Portugal. Até que ponto essa prática não reduz a possibilidade de contrapor diferentes perspectivas? O fato de o acervo de Archimedes estar aberto ao público favorece, anos depois, o surgimento de uma narrativa alternativa: a de uma arquitetura que respeitava a memória do repertório predecessor e que, aos poucos, evoluía.

Num mundo contemporâneo em que as guerras de narrativas movem os debates, nunca é tarde para ler o outro lado da história.

Quem sabe não venha, no futuro, um filme sobre o tema? 😉

One Comment

  • José Henrique de Almeida Braga

    says:

    Sou cearense e arquiteto e urbanista.
    Parabéns pelo excelente trabalho, que traz a lume um capítulo esquecido da arquitetura brasileira.
    Continue!!!

    Responder

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