Vazio, Memória e Arquitetura
Uma visão de arquiteto sobre o filme “Ainda Estou Aqui”.
Por: Fabio Memoria
Atenção: contém spoilers
Difícil não se comover e se inspirar com o filme “Ainda Estou Aqui” do diretor Walter Salles, recentemente lançado nos cinemas. Difícil a ponto de fazer um arquiteto empreendedor, pai de recém nascida, resolver tirar algumas horas do seu pouco tempo de folga para escrever a respeito. Não foi só pela paixão pela escrita e pelo cinema, que aquele que vos fala, ficou com desejo de voltar a escrever. Foi, inicialmente, por sua maior paixão: Arquitetura.
Imagem da gravação do filme “Ainda Estou Aqui”
A Casa onde viveram os Paiva, é um personagem vivo dentro da trama. Ela, que foi interpretada por uma atriz existente na urca bastante parecida com a personagem, era implantada numa esquina da Avenida Delfim Moreira, em frente à praia do Leblon, provavelmente a rua mais cara do Brasil nos dias de hoje. Era de estilo eclético, mas com um ar praiano. Menos ornamentada que os pares de sua época, possuía serralheria com desenhos mais próximos ao estilo Art Decó, arcadas em cantarias de pedra e um tom caiado, remetendo ao colonial. Não é uma casa que pode-se classificar com “grande valor arquitetônico”, mas representa uma ambiência e um tempo de urbanismo despretensioso e leve, quando não havia ainda muros e grades por toda a cidade. Uma ambiência que as APACS tentam preservar o que resta nos bairros da zona sul do Rio.
Reprodução do instagram da arquiteta Patricia Fendt – @patriciafendt
Reprodução do instagram da arquiteta Patricia Fendt – @patriciafendt
Reprodução do instagram da arquiteta Patricia Fendt – @patriciafendt
A Casa tem um tempo de tela digno de protagonista. Mostra toda sua vida com luminosidade, ventilação e fluidez no tempo pregresso ao rapto do então protagonista do início do filme, o deputado Rubens Paiva, interpretado por Selton Melo. Porém, se torna obscura após o sequestro. Tal incidente incitante transforma imediatamente a vida da família e da Casa, momento representado pelo fechamento de suas cortinas feito pelos militares. A partir desse momento, a Casa passa a ser sombria, não diferindo nada em relação à cela onde fica presa a nova protagonista: Eunice Paiva (Fernanda Torres). Ambas são espremidas, frias, pesadas, escuras, apenas com poucos raios de luz.
A Casa tem seu arco narrativo concluído ao encarar de frente um dos antagonista da trama: o Vazio. A Casa é esvaziada por conta da mudança da família para São Paulo que representa assim, uma página virada na vida da protagonista, que precisou seguir em frente na vida e, para isso, deixou para trás seu passado, sua história, cidade, amigos, Casa e mais uma personagem importante: a Memória. O destino da Casa é novamente, assim como o da protagonista, se ocupar de um novo uso, vira um restaurante. Achei curioso isso ser citado. A relevância dessa informação só se explica pela importância que a Casa tem nessa história e na Memória dessa família.
A Memória, outro personagem importante nesse filme, é representada pelas fotos e pelos vídeos e a Casa também fica estampada nesses registros o tempo todo. Mais do que como um cenário, ela atua como uma atriz coadjuvante. Nossas memórias são muito mais fortes e emocionantes quando o cenário é relevante, e a boa arquitetura tem esse poder: de transformar um cenário em atriz.
Reprodução de imagem do filme “Ainda Estou Aqui”
A Casa vazia, após a mudança da família para São Paulo, representa, além da página virada, o Vazio eterno deixado pelo sequestro de Rubens. Vazio em uma vida, é um espaço que não foi preenchido por memórias. Esse vazio está presente o tempo inteiro na película depois do desaparecimento de Rubens. A importância do pai naquela estrutura familiar, é extremamente bem desenhada pelo diretor ao dar tempo para nos apegarmos a ele. E, da mesma forma que a Eunice do filme sente a presença do Vazio, nós também, na proporção que o micro-universo do cinema nos dá de imersão.
Reprodução do instagram da arquiteta Patricia Fendt – @patriciafendt
O Vazio e a Memória não foram os primeiros motivos pelos quais resolvi escrever esse artigo, mas se tornaram a mola propulsora. A ditadura deixou Vazios por toda parte no nosso país e Memórias inesquecíveis deixaram de ser construídas aos milhares. Uma das frases que mais gosto, e que me inspiraram quando estava escolhendo o nome da minha empresa de MEMO, além do meu sobrenome foi: “um povo sem memória, é um povo sem futuro”. Essa frase está escrita no Estádio Nacional do Chile, em Santiago. Foi escrita para que nunca fossem esquecido os 17 anos de ditadura que aquele povo sofreu. O Estádio serviu de cárcere à época e isso gera ainda mais simbolismo. Quando se comete um erro, é importante registra-lo para que se evite que novas gerações voltem a cometê-lo.
Já passou do tempo de fazermos esse registro. O Chile tem outro exemplo de uma forma muito bonita, e cheia de simbolismo, de registrar essa época de trevas. O Museu da Memória e dos Direitos Humanos, localizado também em Santiago, é um belíssimo projeto de arquitetura e que “honra” os acontecimentos da ditadura. Por acaso, foi projetado por arquitetos brasileiros: Mario Figueiroa, Lucas Fehr e Carlos Dias.
Museu da Memória e dos Direitos Humanos, Santiago
Outro exemplo muito bem sucedido no objetivo de registrar os erros do passado de um povo é o Museu Judaico de Berlim. Esse brilhante projeto é do polonês Daniel Libeskind. O autor é de família judia, o que lhe dá um peso e um poder ainda maior nessa obra. Já fiz um artigo inteiro só sobre este edifício, no início de minha carreira, quando publiquei no site da Ignez Ferraz. Até hoje foi o projeto que mais mexeu com minhas emoções, e a memória que tenho dele, é como se eu nunca tivesse saído de lá. O acesso desse museu se dá por dentro do museu nacional do país, descendo umas escadas, como se você estivesse indo para os porões da história. Acho que isso já diz tudo.

Museu Judaico de Berlim, Berlim
Outro exemplo que preciso exaltar é o recém construído memorial do holocausto, aqui mesmo no Rio. Idealizado há décadas pelo meu ex-professor, ex-chefe, amigo e colega André Orioli e desenvolvido pelos meus também parceiros, amigos e colegas da Raf arquitetura. Tem fortíssima e singela mensagem. Vale a visita.
Memorial do Holocausto, Rio de janeiro
Penso que já passou da hora de fazermos o nosso registro arquitetônico. Devemos preencher esse vazio com uma mensagem para ficar na memória das próximas gerações